Sobre alimentar o espírito (com cocadas!)

Estou revirando uma cocada na panela preparada com muito açúcar mascavo e refletindo sobre os últimos acontecimentos da minha vida. Dia desses me falaram para apreciar os momentos de crises porque são eles que nos forçam a sair da zona de conforto. Aqui, com a pança no fogão, enquanto remexo o quitute e o cheirinho de coco se espalha pela casa, me recordo de duas grandes crises que me levaram a um impulso de mudança. Curiosamente, as duas recheadas de cocadas.

A primeira foi depois de trabalhar em uma agência de publicidade falida e me vi sem emprego bem quando começava a desenhar a minha carreira.

Ficar em casa enquanto os amigos trabalhavam, entravam em grandes veículos ou faziam grandes façanhas, me levou a um consumo exagerado de carboidratos, é verdade, mas também me levou a uma anestesia brutal e massacrante que matou o resto de criatividade que habitava em mim.

Só que os boletos, como sei que você sabe, são implacáveis. E por isso tive que reunir forças para continuar trabalhando em casa como freelancer.

Enquanto sapateava o lamaçal do fundo do poço, me vi diante da produção de uma reportagem sobre literatura para a Revista da Cultura. Para esta ocasião, decidi sorver criatividade de um dos grandes livros da literatura brasileira. Estou falando de “Dom Casmurro”, do Machado de Assis.

Durante a leitura, eu me deparei com a menção de uma cocada. Uma cocada pra lá de importante que alimentou Capitu e Bentinho. Uma cocada de corte. Bem açucarada. E que tem um papel curioso na construção do ciúme doentio de Bentinho.

Me deu uma baita vontade de comer cocadas!

Corri para a cozinha e improvisei o doce com uma lata de leite condensado e coco ralado. E… olha só, deixa eu te falar que essa coisa de comer o doce lendo sobre o doce me golpeou como um raio.

É que fiquei me perguntando se Machado de Assis gostava de cocadas. Será que ele comia o doce enquanto escrevia aquele trecho? Por que raios ele decidiu alimentar Capitu e Bentinho com cocadas?

Seria Machado de Assis um apreciador de cocadas na hora da crise?

Foram tais questionamentos que me levaram a criar, no dia seguinte, este blog. A proposta nasceu como um incentivo para aprender a cozinhar com os meus escritores preferidos. Para estrear, é claro que a primeira receita seria a cocada.

Mergulhei numa pesquisa deliciosa sobre como eram feitas as cocadas durante o final do século 19, sobre os quitutes preparados por escravizados nesse período e, mais interessante ainda, sobre a própria relação de Machado de Assis com o doce (pois ele era sim um exímio apreciador de cocadas acompanhadas de um café forte sem açúcar).

Durante os últimos anos eu falei muito sobre como tudo isso começou em palestras, convites em escolas, lá no meu canal no YouTube, ou nas lives e stories do Instagram. Mas foi só dia desses que eu percebi algo extremamente relevante:

Capitu me salvou.

Eu pude alimentar o meu espírito não só com cocadas, mas também com literatura e história num momento em que eu precisava muito de inspiração. E a realidade é que só notei o quanto Capitu me salvou nesta primeira crise ao viver a segunda grande crise emocional da minha vida: a maternidade durante uma pandemia.

Pedro, pés de binasguinhas e bagunça entre livros

Pedro, essa força da natureza de olhos castanhos esverdeados, sorriso fácil e pés de bisnaguinhas, acabou de completar um ano. Isso significa que neste último um ano e nove meses que contemplam minha gravidez e a existência dele neste mundão, eu esqueci absolutamente de mim.

Alguma coisa aconteceu no meio do caminho que me fez abrir mão da Denise mulher, Denise profissional, Denise companheira. Deu-se que deixei de aproveitar essa potência criadora que é a maternidade a meu favor. Os hormônios, ah, estes danadinhos, tão implacáveis quanto os boletos, me afundaram de tal forma que nem me entupir de carboidratos foi suficiente.

Eu só sabia pensar em dormir – e não conseguir fazer isso, é claro – e em contar números da pandemia: infectados, mortos, dias e meses dentro de casa.

Eu me vi totalmente responsável por outro ser-humano cem por cento dependente diante da maior crise sanitária do século – soterrada em fraldas sujas, máscaras e álcool em gel. E é claro que a minha vida profissional foi abalada por isso.

Como freelancer, tive de fazer o tal corre dos boletos. E antes que Pedro tivesse completado um mês, já havia retornado às reuniões que poderiam ser resolvidas por e-mail.

Durante este processo, é evidente que deixei Capitu de lado e, por consequência, o que alimentava o meu espírito.

Até que, num belo dia, mesmo com YouTube, Blog e Instagram largados às traças e sem nenhum conteúdo novo do Capitu, eu recebi um e-mail muito importante. Era um convite do Sesc Campo Limpo para criar quatro vídeos sobre literatura e gastronomia para o canal deles. A proposta era falar sobre Cora Coralina, Jorge Amado, Eça de Queiroz e, é evidente, Machado de Assis e suas cocadas.

Eu estava tão casada. Não havia corretivo nesse mundo que desse conta de melhorar as minhas olheiras maternais. Me lembro de gravar os vídeos de madrugada e editá-los durante as sonecas do Pedro – únicas oportunidades que eu também tinha para dormir. Mas o convite veio como uma boia salva-vidas. Me obrigou a reagir. Me obrigou a fazer cocadas.

Apesar de fisicamente exausta, eu senti uma injeção de ânimo emocional que há muito tempo não sentia. Era a oportunidade de voltar aos meus livros favoritos, às receitinhas, à produção dos vídeos, à pesquisa…

Era Capitu me salvando novamente.

Foi quando decidi procurar ajuda. Dos amigos, dos filmes, dos livros, da boa música e de um profissional.

Sigo me encontrando aos poucos, sabe assim: naquela roupa preferida escondida no armário, naquela maquiagem sem nenhum motivo no meio da tarde, naquele vídeo super bacana que consegui gravar para o canal, naquela torta deliciosa que a família amou e, principalmente, no sorriso do Pedro ao se deparar com uma mãe que não está mais tão cansada e conseguiu finalmente reencontrar o seu propósito.

Quando comecei a sentir esse primeiro e muito pequenino impulso de vida aqui dentro, notei que era o momento de recuperar o que alimentava a minha alma. Para as favas com o trabalho sem graça, com o texto careta, com o título sem tempero.

Eu queria cocadas!

Sim, é verdade que ainda estou em um processo de descoberta desta nova Denise que surgiu após a maternidade e sigo me impressionando diariamente. Sabe como quando vivemos a construção de uma nova amizade? Aproveitando cada nuance, cada trejeito novo, cada risada escandalosa sem motivo.

Superado os hormônios e o medo de ser mãe durante uma pandemia, sei que agora estou diante de uma Denise muito mais inspirada por Pedro, Capitu, e cocadas.

Tanto é que estou aqui até fazendo esse meu primeiro textão depois de tanto tempo, enquanto espero as cocadinhas apurarem lá no fogo. É motivo para se orgulhar, não é?

Pretendo estar por aqui uma vez por semana dividindo as minhas pesquisas sobre literatura e gastronomia. Você me acompanha nessa?

Ah, já ia me esquecendo…

Me segue lá no Instagram para acompanhar receitas de livros e conhecer a importância delas para a obra 🙂